Um "Papo Cabeça" com os Jovens
Você pode silenciá-lo, julgando-o tolo; pode cuspir nele e matá-lo, julgando-o um demônio; ou então, cair a seus pés e chamá-lo Senhor e Deus. Mas não me venha com tolices condescendentes, afirmando ser ele um grande mestre humanista. Ele não nos deixou esta alternativa. Não era sua intenção fazê-lo. — C. S. Lewis
Quem foi Jesus Cristo? Essa pergunta é o passaporte para uma série de aborrecimentos. Experimente: chegue em uma lanchonete, faça sua roda de amigos e pergunte: "o que você acha de Buda?" Dependendo do grupo, a conversa pode progredir, e até ficar animada, com os fatos e curiosidades a respeito desse "santo" oriental. Pode até encontrar alguém que tenha estado no Japão, visitando a grande estátua a ele erigida. Agora, mude de santo; passe para Maomé, o profeta muçulmano. Você pode se surpreender com a quantidade de coisas boas que se dirá a seu respeito. De repente, pode aparecer algumas dúvidas sobre o que ele disse, sobre quem alegou ser, sobre como "canonizaram" sua pessoa sem sua intenção etc. Bem, agora mude para Jesus Cristo: "o que vocês pensam dele?" Agora você arranjou encrenca. Alguns amigos sairão "de fininho", achando que está na hora de ir para casa; outros acharão que a conversa já não está tão boa e tentarão mudar para o rebolado da garota que acaba de entrar; outros dirão que não gostam de discutir futebol e religião. Resultado: a conversa tem tudo para parar por aí. Quer provocar mais ainda? Pergunte aos dois ou três que restaram, por que não gostam de discutir religião somente quando se trata de Jesus de Nazaré. E a alfinetada fatal: pergunte assim: "só porque ele era Deus?" Pronto! Pisou na bola de vez. O comentário mais provável será: "bem, acho que Jesus foi um grande homem, um líder carismático, um santo, sei lá, mas essa história de Deus, de filho de Deus não dá para mim". Mas o constrangimento só passará se você aceitar a proposta de mudar para o rebolado da "gatinha" que entrou. Se prosseguir, as coisas ficarão piores, porque, provavelmente, você perguntará: "qual é a diferença entre Buda, Maomé e Jesus?" E a resposta acabará sendo que há muitas diferenças, mas entre as principais está o fato de que nem Buda nem Maomé ousaram afirmar serem filhos de Deus. No máximo, consideraram-se enviados dele. Admitiam serem falhos e pecadores. Admitiam sua humanidade e corrupção, "numa boa". Mas Jesus não: ele dizia claramente: "eu e o Pai somos um", ou então: "quem me vê a mim, vê ao Pai", ou ainda: "quem ouve as minhas palavras, ouve meu Pai, pois eu não as falo de mim mesmo, mas falo das coisas que aprendi junto ao meu Pai". Além do mais, Jesus era "insuportavelmente" exclusivista. E isso é muito antipático, pois não sobra para ninguém: "ninguém vai ao Pai senão por mim". Ao fazer-se o único caminho para Deus, o Mestre torna o ar à sua volta quase irrespirável. É claro que estou me referindo aos ouvintes que não crêem nessas reivindicações de divindade. Aí está, a meu ver, o grande diferencial. Como gostam de dizer, hoje em dia, Jesus tinha uma proposta diferenciada. Com ele, era tudo ou nada. Ou era Deus ou era embusteiro, mistificador e mentiroso. Há uma última alternativa: era maluco de pedra. O grande escritor cristão C. S. Lewis, professor de Literatura Medieval em Oxford, na Inglaterra, diz assim: Um homem que fosse apenas um homem, e dissesse as coisas que Jesus disse, não poderia ser um grande mestre moralista. Ou era um louco — e portanto se acha no mesmo plano daquele que afirma ser um ovo cozido — ou então era um demônio do inferno. Cada um tem que fazer sua escolha. Ou este homem era, e é o Filho de Deus, ou então era louco, ou coisa pior."(1) Bem, agora, a conversa começaria a esquentar de verdade. Algum participante poderia sugerir que Jesus era, sim, um grande homem e só. Por que não? E você teria que fazer o papel de "advogado do diabo" e mostrar que, ou se trabalha com dados concretos (provas documentais e testemunhais) ou será cada um com sua opinião. E bem sabemos que opinião não prova nada. — Mas esta não é uma questão de fé? — dirá algum participante. E você dirá que sim, mas que essa fé não é sinônimo de credulidade ou misticismo esotérico; que tem sua base factual, histórica. Que Jesus não é uma abstração, uma influência, uma idéia bonita. Você ponderará que qualquer pesquisa sobre quem é o personagem mais importante da história da humanidade trará Jesus Cristo com "duas voltas sobre o segundo colocado". Como poderia uma abstração mística produzir esse fenômeno? Como poderiam tantos bilhões de seguidores, passados dois mil anos, estar tentando pisar nas pegadas de uma idéia bonita? Você se lembrará das palavras de João, ao justificar seu evangelho: Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais vida em seu nome (Jo 20: 30,31). Mas não termina aí, sua "advocacia ao contrário": você mostrará que esses fatos históricos nos levam a um dilema importante. O que se pode pensar de um homem que se tornou de tal forma insuportável aos seus semelhantes que as autoridades religiosas das igrejas que ele freqüentava o prenderam e o mataram? Ao serem questionadas por Pilatos, a autoridade romana que o julgava, disseram: "se esse não fosse um malfeitor, não to entregaríamos" (Jo 18:30). A imagem de "grande homem" não pode ser tirada dos registros históricos. E tem mais: esses mesmos registros dizem que ele foi chamado de endemoninhado e de louco. Precisamos ser honestos com os registros, no entanto. Há a alternativa apresentada por João e por centenas de testemunhas: a possibilidade de ele ser quem dizia ser: o filho de Deus. Quer saber se ele era louco? Compare suas palavras com sua vida. O que caracteriza um louco é a discrepância nessas duas áreas. Sabemos que uma pessoa "desligou-se da realidade" quando, por exemplo, coloca a mão na camisa e diz ser Napoleão. A gente percebe logo que não é, porque ele não consegue ser convincente. Mas Jesus era terrível: dizia ao cego para ver, e o cego voltava a enxergar; perdoava os pecados do paralítico, e este, além de ter cura da alma, pegava a cama e saía andando; mandava um espírito imundo sair de um homem e este desandava a glorificar a Deus. A sua autoridade, resultante dessa consistência vivencial, emudecia seus inimigos. Chegaram ao ponto de colocar guardas para vigiar a porta do sepulcro, pois haviam ouvido que ele afirmara que ressuscitaria ao terceiro dia. Não queriam "a emenda pior que o soneto": que os discípulos roubassem seu corpo, durante a noite, e depois proclamassem a todos os ventos sua ressurreição. Pois não é que, com guarda e tudo, o corpo sumiu? Bem, a conversa está boa mas a lanchonete vai fechar. E como ficamos? Se Jesus era realmente o Filho de Deus, por que o mataram? Talvez melhor seria colocar a pergunta no presente: "por que o matam"? E a resposta é a mesma, ontem e hoje: porque não suportaram — como não suportam hoje — as implicações dessa alternativa. Dá para viver com a idéia de que Jesus era um louco, um mistificador, um mentiroso, sei lá. A gente passa um "glacê de bolo" por cima de tudo, e convive "numa boa" com seus "sublimes ensinamentos". Ele fica no canto dele, de "bom mestre", e eu fico na minha, vivendo do jeito que quero. Cada um na sua. No entanto, se eu admitir que nosso planeta foi visitado por Deus; e que esse Deus, através de seu enviado — seu próprio filho! —, nos ensinou como deseja se relacionar conosco, e como espera que vivamos, então já não posso mais ser indiferente. É perigoso demais. É mais ou menos como ignorar um alerta de incêndio no hotel em que me encontro. Se eu tiver um mínimo de bom-senso, precisarei (nem que seja por pura covardia) saber direitinho o que ele disse, o que queria, e o que eu tenho a ver com isso tudo, para não correr o risco de "me dar mal" nessa história. É por isso que o "papo" sobre Jesus nunca vai muito longe. Mas se o seu chegou até aqui, com seus amigos da lanchonete, parabéns, você foi um evangelista, mesmo sem querer. Termine a conversa com uma citação de João: Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome (Jo 1: 11,12) . E saiba que uma conversa dessas ninguém esquece. (1) Veja LEWIS. C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo, ABU, 1980. |